31 de out de 2011

cá estou eu, sentada em um lugar inusitado degustando um café forte e quente, olhando a chuva e as pessoas que vão, vem, vão e vem o tempo todo.
essas pessoas andam livremente na chuva como se a água não molhasse. o mundo não para.

é perceptivo as pernas grossas de fora e os braços fortes modelados em uma blusa fina.
as crianças correm achando tudo isso divertido e não vejo nenhuma mãe histérica na volta pensando em gripe.
as grávidas alisam suas barrigas enormes e comem o que sentem vontade, até mesmo o sorvete, que derrete mais rápido por causa da chuva.

o guarda-chuva é mero detalhe, só para dizer que não estão de mãos abanando.
poucos carros, muitos pedestres. o sinal já ficou verde e vermelho umas cem vezes e eu continuo aqui sentada, querendo que esse café nunca termine.

as pessoas que estavam sentadas à minha volta já se foram, e eu continuo aqui a contar os pingos d'água.
parece 6 da noite e são apenas 3 da tarde. esse é o nosso outono, molhado.

23 de out de 2011

para entrar no clima parisiense: http://migre.me/5YUcS

eu vou ao cinema toda semana. às vezes assisto um filme, às vezes dois, ou três... depende do tempo livre. tudo isso graças ao sensacional cartão cineworld. paga-se 19.99 euros por mês e assiste quantos filmes quiser, ou aguentar.

eis que de todos os filmes que assisti, essa semana teve um que me chamou a atenção, e muito. midnight in paris (meia noite em paris).  não li a sinopse, não sabia do que se tratava. só fui ao cinema porque tinha umas horinhas free entre a aula e o trabalho. aliás, fui até lá para assistir os 3 mosqueteiros, mas já tinha perdido a sessão. sentei ali com meu energético e meu sanduíche com aquele pensamento de "acho que dormirei, estou muito cansada".

ledo engano. os primeiros minutos de filme são apenas imagens da minha amada paris, com aquela música sensacional francesa que me fez tanto lembrar os bons momentos que tive por lá. e que só me faz querer voltar.

resumindo, trata-se de um escritor meio inseguro sobre sua escrita, que vai para paris com sua noiva mega chata. a meia noite ele está sozinho perdido nas ruas de paris, meio bêbado, quando um carro pára e dá uma carona para ele, direto para os anos 20. isso mesmo, década de 20! 

durante várias noites ele viaja no tempo e encontra conhecidos nossos, tais como picasso, salvador dali, hemingway... etc.
unindo arte e literatura com o charme de paris e toda sensualidade dos anos ditos dourados, em uma cena quase no final, eis que surge a frase (parecida com isso) 'passamos a vida toda procurando pela época de ouro, sem perceber que a época de euro pode ser a que vivemos'.

e assim o ator principal faz uma reviravolta em sua vida, encontrando enfim os anos de ouro, o presente.
e não é verdade? estamos sempre pensando no que passou, ou sonhando com o que ainda não chegou e esquecemos de viver intensamente o que realmente importa, o agora.

21 de out de 2011


os sentimentos não foram feitos para serem escondidos, principalmente os meus, que são todos à flor da pele. 
não gosto de escondê-los, embora às vezes o faça. e do jeito que sou desligada, é bem capaz de perdê-los por aí e passar a vida viajando à procura deles.
aí sabe como é, né? vem aquela tristeza e raiva acumuladas - sem sentido e sem motivo - que ocupam muito espaço, enchem o meu peito e me dão falta de ar. 
felicidade esquecida é um desperdício, afinal o que colore o mundo são os sorrisos. pra que guardá-los? sorrimos.
então eu choro se me dá vontade, rio quando acho graça, brigo se for necessário. e nem ligo se me chamam de sensível. sentimentos ficam um tanto desconfortáveis dentro da gente. eles nasceram para ser livres. 
pois que sintam o gosto da liberdade!


15 de out de 2011

quem nunca se apaixonou pelo professor/a que atire a primeira pedra.
ok, acredito que o caso não é paixão carnal, mas sim uma imensa admiração pelo trabalho em sala de aula. mas como adolescentes imaturos, achamos ter encontrado o amor pra vida toda.
nada.

a maneira como as coisas são expostas parecem tão fáceis que nos faz pensar que, todos os outros professores que tentaram ensinar a mesma coisa antes eram tolos ou incompetentes. 
era só amor.

ser professor é uma arte, não é para qualquer um. e eu já me apaixonei por vários, e me apaixonarei sempre.
feliz dia do professor. e que por detalhe sou professora também. e que por mera coincidência, é meu aniversário. 

então feliz aniversário. feliz dia.

10 de out de 2011

hoje eu decidi não fazer nada. nada daquilo que não me agrada. nada de levantar cedo, de caminhar 45 minutos até a escola, nada de pegar vento na cara e ficar escabelada. nada de me estressar. nada de nada.
decidi ficar aqui, no lugar mais gostoso da casa: a cozinha.

aqui onde tem uma janela enorme (que vive respingada de água da torneira) e que nem me dá uma visão tão privilegiada, uma vez que o que tenho em frente é um prédio. eu não gosto daquela parede que vejo. mas do lado direito, no cantinho ali, bem tímida e escondida tem uma árvore. grandona, cheia de folhas, folhas que agora estão amareladas e caindo no chão. e em dias como hoje que decidi fazer nada, vejo ela balançando pra lá e pra cá com esse vento que quase ganha do meu minuano lá do sul. eu disse q-u-a-s-e.

pois bem, olhando para essa árvore me peguei pensando em quantos outonos já vivi aqui e percebi que já completei dois anos de irlanda. as pessoas me perguntam quanto tempo estou aqui e eu continuei dizendo 'quase dois anos'. dois anos poxa, é muito tempo. como pude deixar isso passar despercebido? como fui me envolver nessa rotina de aula e trabalho e mais aula e mais trabalho e afazeres domésticos e pouco tempo livre e esquecer o aniversário de algo tão importante pra mim? ainda bem que decidi fazer nada hoje.

estou eu aqui, tomando meu café... nossa, esses dois anos passaram muito rápido, e foi tudo tão intenso que parece uma eternidade. saí do brasil com duas malas, muito espirito aventureiro e sem medo de ser feliz. hoje, o espírito aventureiro ainda existe, a felicidade alcançada 99% e as malas... bem... espero eu ter grana para pagar excesso de todas as malas que vou ter que carregar para o brasil um dia. e eu ainda digo 'viajei pouco'. nossa, que ridícula que eu sou. viajei menos do que gostaria, fato. mas viajei muito mais do que imaginava uns anos atrás. as coisas que vi e vivi, e continuo vendo e vivendo são tem explicação. não tenho como descrever a sensação de cada dia. não consigo descrever as mãos suando ao embarcar em um avião (todas as vezes, sem exceção). não tenho como descrever aquela sensação horrível de ter que carimbar o passaporte. sempre vem o medo do 'e se der errado'. bobagem de principiante, né? pode até ser, mas sou sempre principiante em um país novo.
não tenho como descrever a sensação de felicidade e tristeza que andam lado a lado todos os dias. a felicidade de estar onde eu quero e a tristeza de não ter as pessoas que amo. a felicidade de andar livre pelas ruas com segurança, e a tristeza de andar sozinha. a felicidade de viver algo diferente (bom ou ruim) e a tristeza de nem sempre ter com quem dividir.

dois anos. nossa, dois anos não é nada comparado com tudo o que tenho ainda pela frente, mas é muito se levar em consideração o que passei. óbvio que irlanda não é um mar de rosas. o que fica são as boas lembranças, mas tem as histórias tristes também. as angústias de achar emprego, o pânico de ver o dinheiro acabando, a raiva de aguentar gritos de um chefe estúpido, a grosseria dos clientes... enfim. dizem que está me servindo de aprendizado para lidar com todo e qualquer tipo de gente no futuro. espero que sim.

e vou ficando por aqui, fazendo nada. o café acabou, o vento continua, o sol resolveu brilhar. essa é minha rotina, uma inconstância diária de acontecimentos inesperados que não me deixa dúvida de que fiz a escolha certa em ter vindo para cá.

8 de out de 2011

acompanhada de Bruna Caram
porque esse é um daqueles que ninguém entende, mas que me traduz completamente.


1- "na cabeça vem aquele verso sobre o meu novo universo"
e meu novo universo continua sendo o mesmo bom e velho universo de quase dois anos: dublin. aquele universo que se revela a cada dia. e que surpresas à parte, há quem diga que é interior, mas para mim está na medida dos meus sonhos, nem demais, nem de menos. do tamanho do meu peito.
hoje, no terceiro apartamento, vejo uma felicidade nas ruas que não via quando cheguei. a qualidade antes não vista, hoje é refletida no canal que caminho à beira. as pessoas saudáveis correndo pela manhã com seus mp3, curtindo uma das cosias que dublin sabe fazer muito bem, ouvir música, e das boas.
e eu caminho entre eles, desviando de um e de outro, saindo do caminho de quem tem disposição matinal e incrível, sem cara amassada. correr e rir era uma coisa meio impossível, até eu ter confirmado o contrário com esses quatro olhos que tenho.

2- já vesti a roupa colorida
e por esse caminho ou vou sempre, todos os dias para qualquer lugar. e nunca vou sozinha, sempre tem meus amigos penosos nadando do meu lado, de uma ponta à outra. e até poderia ter a pretensão de dizer que entre nós rola uma química, um sentimento forte onde eu gosto de ver e eles gostam de se mostrar. coçam-se, nadam, voam, fazem de tudo para chamar a minha atenção e eu fácil do jeito que sou, me entrego à essa maravilha sentando à beira para contemplá-los.

3- não tirei nosso boton na mochila
e ali sentada, lembro o tempo todo de quem está lá do outro lado do oceano esperando por mim... e eu espero poder voltar, um dia talvez quem sabe. para ter o abraço que não tive por tão longo tempo e que tanto me fez falta. e abraçar, apertar, esmagar e dar todo o carinho guardado aqui dentro desde a última vez até sabe-se lá que dia.

7 de out de 2011

sabe o que eu acho um absurdo, mas absurdo mesmo, assim, que chega a dá uma raivinha por dentro?
ouvir as pessoas reclamando da temperatura da irlanda.
por que assim, vai me dizer que a criatura reclamona veio para dublin achando que ia dar praia? oi?
depois de quase dois anos, eu ainda recebo muitos emails perguntando como é a vida aqui e tudo mais. sou curta e grossa:

"se não gostas de frio, não venha". simples.

mas para quem gosta, super recomendo.

6 de out de 2011

porque não existe ninguém mais lento do que o meu gerente mor:

ele: você precisa estocar suco.
eu: já fiz
ele: e os copos?
eu: também.
ele: e os condimentos?
eu: também...
ele: e as caixas?
eu: também.
ele: ah... então vá abrir a porta.
eu: está aberta!!!
ele: mas já são 11 horas?
eu: são 11h10
ele: ah, muito bem. você fez um excelente trabalho.
eu: obrigada.espero que o gerente esteja vendo isso.

(sim, porque todo o resto ele não viu).

5 de out de 2011


está aberta a temporada mais gostosa do ano. aquela em que as folhas amarelas caem no chão dando um toque especial às avenidas arborizadas.

a época em que o vento é diário, as chuvas finas constantes e que a temperatura está entre 'gostosa' e 'perfeita'.


bem-vindo outono que tanto amo.

1 de out de 2011




parece que meu grito não tem voz.
ninguém entende quando digo que estou cansada. 
ninguém me ouve.
dói, dói demais.
é uma dor que vem do calcanhar, sobe pelas pernas e chega até o peito.
sufoca, é difícil até de respirar...