29 de jul de 2012


para ler ao som de: http://www.youtube.com/watch?v=1pSyYhRYeIM

acredito que as pessoas solteiras no geral tem a mania inconsciente de analisar pessoas do sexo oposto. Flor pelo menos fazia isso constantemente. quase que diariamente, sempre à procura do seu par ideal.

ela analisava tudo nas pessoas, dos pés à cabeça... os cabelos, os olhos, a boca, o sorriso, as mãos, a altura, as atitudes, a conversa, a voz, a alegria, o brilho no olhar, a educação, enfim... analisava o máximo que pudesse.
mas para analisar da maneira que gostava, precisava de tempo... dias, semanas ou até meses.
muitas vezes percebia em 5 minutos que a pessoa não lhe interessaria, mas analisava mesmo assim. manias! quem sabe alguém não a ganharia em um mísero detalhe.

foi quando Flor viu 'ele' entrando pela porta. uma pessoa aparentemente sem graça, meio moleque, estatura mediana, lábios grossos, da cor do mais puro pecado brasileiro.
Flor esqueceu de pensar, de respirar, esqueceu de esconder que estava analisando-o.
as mãos dele pareciam tão macias, bonitas, inquietas, se mexiam o tempo todo. Flor não conseguiu parar de olhar.

os olhos eram redondos, grandes e pretos; brilhavam muito cada vez que falava sobre algo do seu agrado. a voz mansa colocava muita paz e sentimento às palavras e expressava todos os seus sonhos com histórias já vividas e um ideal de vida admirável.
seu cabelo, nem curto nem comprido, bagunçado e cheiroso dava um toque especial àquela cara amassada de sono. ela tinha certeza que ele tinha acordado há pelo menos 20 minutos atrás.
tinha uma mochila surrada, roupas pretas e uma bicicleta.
embora tivesse visto tudo isso, Flor não teve coragem de falar com ele. por timidez, por ser muito fechada ou por falta de oportunidade mesmo.
talvez ela não tenha sido analisada com a mesma intensidade e riqueza de detalhes; talvez Flor não fizesse o tipo dele, ou não fosse interessante o suficiente. talvez estavam ali para outra coisa que não fosse se conhecer propriamente.

com o passar das semanas Flor foi analisando as palavras dele, as visualizações de mundo que eram muito parecidas com as dela. um sonhador, um batalhador, um admirador, um amor... um amor de pessoa.
e por que não conversar com esse ser tão rico de características únicas reveladas a cada momento?

conversaram.

e de novo, e de novo. e foram tomar uma cerveja. uma coisa despretensiosa de segundas intenções. mas o vestido de bolinha fez sucesso e teve um beijo longo e doce. foi o beijo mais demorado, sincero e espontâneo que Flor já teve. daquele momento em diante sabia que o que ela queria era estar com ele. dormir e acordar junto todos os dias. não que isso tivesse que ser para sempre, mas queria muito que isso acontecesse naquela momento.

seu nome? não sabemos, mas ela o chamava silenciosamente de Mô.
e Mô a fez muito feliz. Mô cozinhou várias e várias vezes, e a esperou após o trabalho de madrugada, e levou café da manhã na cama, e tomaram sol  juntos comendo bolo de cenoura... ele era carinhoso, amoroso, quente, inteligente, simpático, atencioso. ele a ajudou em muitos momentos dificeis. a ajudou nas decisões mais importantes, e deu coragem a ela para seguir adiante com os planos, e deu apoio para dizer "chega" às coisas que estavam erradas.

Flor ficou quatro dias sem trabalhar. disse que estava doente, só para passar mais tempo com Mô... E foi a melhor coisa que ela fez na vida.
Mô tinha tinha um cheiro de bebê, uma pele suave, um abraço forte e um peito lisinho que encaixava perfeitamente na cabeça dela. ela ficava horas deitada ali, no melhor travesseiro do mundo. ficavam olhando o mapa mundi todas as manhãs, ouvindo o barulho da chuva que mô colocava no computador para Flor pensar que não precisava sair dali, estava chovendo lá fora.... mesmo não estando. o sol brilhava era ali dentro. observavam os quatro cantos do mundo fazendo planos de onde ir, de onde não ir e trocando histórias de lugares já desbravados.

e não existia ciúme, não existia cobrança, nem brigas, nem discussões, nem discórdias. existia cumplicidade, amizade, carinho, honestidade e uma enorme vontade de gritar para todo mundo ouvir que entre eles existia muito mais do que isso. existia sentimento.
mas nunca ninguém gritou...

eles eram mais que amigos... os pêlos arrepiavam, era um tremor no corpo à cada surpresa que Mô fazia. era brilho no olhar a cada passo de mãos dadas. era sol em dia de chuva, sorriso em meio de lágrimas, era força, desejo, saudade.

e eles beberam juntos, riram juntos, cozinharam, passearam, assistiram filmes, seriados... fizeram muito em pouco tempo.
mas Flor sempre acreditou no momento único e eterno. e nunca imaginava conseguir tudo isso quando o viu entrando por aquela porta.

mas como nem tudo são flores, Mô foi embora. foi para uma cidade perto, mas Flor já não o tinha mais todos os dias e dizer tchau foi mais doloroso que qualquer coisa que já tinha passado.
até que ela não aguentou mais a dor da saudade, saiu correndo, entrou no primeiro ônibus e se jogou nos braços de Mô pela segunda vez. ela não aguentava mais os dias cinzas, nem o frio, nem a chuva. precisava muito daquele abraço para aconchegar.

e aquele dia fez sol, fez sol como há muito não fazia. e estava calor, mas tão calor que Flor ficou descalça, caminhou na grama, sentiu a energia de quem está vivo.
e dar tchau pela segunda vez foi pior que a primeira e ela decidiu que nunca mais daria tchau.
mas como tem coisas que não podemos controlar, Mô decidiu ir morar mais longe ainda e tiveram que dar tchau pela terceira vez.

faz tempo que isso se sucedeu, mas Flor ainda lembra como se fosse hoje aquele moleque entrando pela porta, de cabelo bagunçado e cara de sono, lábios grossos e da pele com a cor do mais inocente pecado... 

27 de jul de 2012




...foi uma péssima ideia começar a mexer no que estava mofado naquela tarde de sol.
para que fechar mala tanto tempo antes do necessário? só para ter um fantasma no meio do caminho avisando todos os dias que a partida se aproxima...



26 de jul de 2012

eu queria escrever uma coisa bonita. queria escrever sobre o que eu sinto aqui dentro. 
mas e como explicar a mistura de sentimentos que mudam e saltam pela boca a cada 30 minutos?

queria escrever sobre as crianças que correm nos parques, 
ou sobre os pássaros que cantarolam de manhã.

poderia ser também sobre o sol que brilha às vezes, 
do sorriso gostoso que algumas pessoas me roubam, dos pés para cima em dia de chuva.

queria expressar a vontade de sair correndo às vezes e nunca mais voltar. 
ou da vontade de ficar parada sem se mover.

falar sobre o universo, sobre um abraço bem forte, um beijo que faz tremer, 
o amor dos inocentes.

mas como eu não sei falar sobre nada disso, 
fico aqui quietinha...


 só observando.

15 de jul de 2012


acredito que todo mundo tenha seu lado materialista. seja por qual tipo de matéria. eu por sinal, tenho vários lados assim. consumista por natureza, qualquer coisa... compro e compro muito. e ganho muito também, e pouco sei me desfazer daas coisas.
não adianta eu me iludir achando que um dia serei minimalista, pois se isso acontecer, será por milagre divino.
embora eu doe bastante coisa (roupas geralmente) sou apegada às coisas que não fazem muito sentido.
livros que li e não gostei. que estão lá juntando pó, todos empilhados sem um lugar especial. ou livros que nunca li e que sei que nunca lerei. poderia dar par alguém que gosta desse tipo x de leitura, ou para uma casa de caridade, para uma escola, sei lá. não consigo. tenho um apego desnecessário e inexplicável.
tenho cartas, cartões de natal, de aniversário, de dia do amigo, de dia da árvore, dia do índio. coisas de gente que já nem falo mais. que já nem tenho notícias. mas que estão lá, guardadinhos na caixa de relíquias.
meu bichos de pelúcia, que nem condizem mais com minha idade, mas que tanto os amo e que não vivo sem. que 'emprestei' muitos deles aos meus amigos antes de vir embora, porque sabia que seriam bem cuidados, e que gostaria muito de pegar todos de volta. mesmo sabedo que não tenho mais espaço para colocar os antigos com os novos.
bobagens! coisas que a gente se apega sem necessidade explícita , mas que por trás de tudo tem uma história.
os móveis, as roupas, os porta-retratos, os enfeites e a decoração da casa eu desapeguei. pedi à minha mãe que doasse tudo, que vendesse, que pegasse para ela ou que fizesse o que achasse conveniente.
mas tem coisas que não tem como se desfazer, e é nesse momento que entro no impasse de como levar três anos de história em algumas pequenas malas.

muitos materiais, memórias infinitas.

10 de jul de 2012

lembro como se fosse hoje a primeira vez que dei tchau nessa ilha molhada. ainda sinto aquela dor horrível de ver alguém partindo, me deixando ali sozinha e desamparada, jogada como um sapato velho sem utilidade. não que a pessoa seja culpada, afinal somos livres para ir e vir. mais vir do que ir na minha opinião, mas não posso amarrar ninguém ao pé da mesa, infelizmente.

hoje entendo perfeitamente a reclamação dos meus amigos que no brasil ficaram.
dizer tchau é uma merda.

e não adianta se iludir com um "até logo" ou com o "a gente vai se ver um dia". a gente sabe que as vidas tomam rumos diferentes e que esse "um dia" pode nunca vir a acontecer. ou se acontecer, demorar tanto que não será mais a mesma coisa. pois, por maior que seja nosso sentimento, as coisas sempre se encaminham para rumos diferentes, com pessoas diferentes e o que restam, por mais doces que sejam, são apenas lembranças.

lembro que chorei, e chorei profundamente por dias e mais dias. parecia que as lágrimas não iam acabar nunca. acabaram, mas logo depois outra pessoa foi embora, eu tive que dizer tchau novamente e tudo aconteceu como da primeira vez. e de novo, e de novo... e depois de tantas vezes, hoje de novo.

quantos tchaus eu já dei? não tenho nem idéia... mas sei de cor e salteado aqueles que chorei. os amigos especiais que de alguma maneira fizeram parte dos melhores momentos que tive por aqui.
amigos, até logo. e que a gente se veja... em breve.

4 de jul de 2012

o ser humano, na minha idéia, era uma coisa muito complicada até uns tempos atrás. de repente por eu ser uma humana jovem, com idéias desencontradas e meio perdida no mundo.

hoje, continuo perdida, com aquele sentimento de 'o que eu estou fazendo'. às vezes me pego pensando no que eu quero da vida. nunca consegui encontrar a resposta, mas eu sei exatamente o que eu não quero, e isso me deixa tão leve, de saber que tracei pelo menos meio rumo do meu caminho, para seja lá onde eu estiver indo.

eu aprendi que o sol é importante. que a gente passa a semana toda para ver ele, mas quando ele aparece eu decido ficar em casa, na minha cama. deixo ele entrar timidamente pela janela e aproveito meus momentos sóbrios comigo mesma. e eu vivia reclamando que não tinha folga, que perdi todas as programações bacanas com meus amigos. mas agora que eu tenho muito tempo livre, quero curtir a mim mesma, minha cama, meu quarto, minha casa. assim, bem egoistinha.

e que a futilidade alheia me incomoda e muito. que a balada da modinha não me agrada em nada e que quem está com esse pique todo me cansa só em pensar. que meus programas favoritos no momento são curtir uma tarde gostosa com as amigas, tomando um café e comendo algo bem doce e calórico, uma taça de vinho, a programação de uma viagem, comer bem... e muito, diga-se de passagem.

me faz muito feliz encontrar as amigas para bater papo, delirar sobre a vida, dar risada das nossas inseguranças e tomar uma boa guinness. ver que estamos juntas conforme o destino nos colocou uma perante as outras é muito bom e que não precisa muito mais do que isso para nos satisfazer. e que ver um filme sábado a noite é muito mais útil que qualquer encontro furado com um qualquer.

e por aqui tantas pessoas passaram, tantas vieram e muitas outras foram que já nem sei mais quantas. e que de todas essas, duas ou três mantem contato. e que de todos, muito não mudaram, muitos não amadureceram, muitos regrediram...

e eu fico aqui, sem saber se essa calmaria que se apossa de mim é natual. e até quando essa minha agitação pelo novo será criticado. e você encontrar alguém que me compreenda 100%, segura, prende, não deixa fugir... guarda para mim.